sábado, 31 de outubro de 2009

Estado Zero ou Estado Intervencionista? No meio é que está a virtude.

O meu colega e amigo Bruno Antunes desafiou-me a escrever um texto relacionado com uma intervenção que fiz numa aula de Direitos Fundamentais, onde sustentei a minha concordância com o Tribunal Constitucional, aquando da pronuncia do TC pela não inconstitucionalidade da norma do Código Penal que incrimina o lenocínio.

Para quem não sabe, o crime de lenocínio traduz-se basicamente no facto de alguém profissionalmente ou com intenção lucrativa fomentar, favorecer ou facilitar o exercício por outra pessoa da prática de prostituição.

O acórdão em causa, relacionava-se com um recurso interposto, em que a arguida sustentava, em traços gerais, que proibir o lenocínio violava a Constituição, nomeadamente porque era um factor impeditivo da livre escolha da profissão. Considerei eu, que este argumento é inadmissível, que não poderia ser considerado que a livre escolha da profissão tinha um âmbito que permitisse ainda considerar como licito escolher a profissão de ter ganhos económicos com a objectificação do corpo humano, indo esta prática contra toda a lógica Kantiana do Homem como fim em si mesmo e da não objectificação do ser Humano.

Uma colega advogou que talvez pudesse não ser assim, no sentido em que poderia esta ser uma esfera da autonomia pessoal, em que o Estado não deveria interferir. Eu considerei pelo contrário, que existem algumas situações, escassas é certo, em que a intervenção do estado é fundamental para a manutenção de certos valores e direitos fundamentais. Questionei a colega, e foi este o facto que despertou a atenção do meu amigo Bruno Antunes, fazendo com que este me solicitasse este texto, convite que aceito com gosto, que nesta perspectiva do Estado nunca intervir (Estado totalmente liberal) a ideia de salário mínimo também não faria qualquer sentido, já que o Estado não se teria que preocupar com o Direito fundamental de um mínimo de existência condigna, aliás, decorrente igualmente do principio da dignidade da pessoa humana.

Se o Estado fosse minimamente intervencionista, se tivéssemos um estado liberal puro e duro, existiam um conjunto de valores e direitos fundamentais que ficariam desprotegidos. O exemplo, claríssimo, dos Direitos Económicos, Sócias e Culturais, essencialmente direitos a prestações por parte do Estado, que subordinados à reserva do possível, se reconduzem ao Estado assegurar, por exemplo, um Direito à Saúde ou a um Direito à Educação.

Regressando, e terminando este pequeno texto, à problemática do salário mínimo, dizer que o estabelecimento de um salário mínimo, em termos de Economia, se reconduz à fixação de um preço máximo abaixo do preço de equilíbrio, factor que efectivamente poderá ter efeitos adversos, como seja, desde logo, a não contratação de pessoas que estariam dispostas a trabalhar por 300, mas que não podem ser contratadas por um valor abaixo de 500, por exemplo. Ainda assim, considero que em nome desse direito fundamental da dignidade da pessoa humana, com inúmeras decorrências na nossa Lei fundamental, deve ser assegurado um salário mínimo, por um imperativo de Justiça. Mas considero, que neste particular, poderia existir lugar à discussão. Já não, na criminalização do lenocínio, diferentemente, note-se, da questão da criminalização da prostituição, que em Portugal não sucede.

Agradeço ao Bruno a oportunidade.

Um texto de Tiago Mendonça, estudante do 4º ano da Faculdade de Direito de Lisboa, Presidente da JSD Moscavide, blogger do Laranja Choque.

Textos de convidados.

O Um Blogue do Caraças vai ser palco de uma iniciativa que pretende promover e melhorar o debate que é característica deste espaço. Desse modo, convidamos a escrever aqui várias pessoas que demonstrarão alguns pontos vista. Esta é uma iniciativa que já teve lugar aquando do 25 de Abril mas nesse caso o convidado estava adstrito a um tema. Desta feita, o sistema é diferente. Pode dar-se o caso de o convidado estar adstrito a um tema pré-definido por alguma razão, mas também pode dar-se o caso de ser o próprio convidado a sugerir um tema, tendo liberdade de conteúdo. Sairá um texto por semana, em princípio aos sábados. Dentro de pouco tempo sairá o primeiro. Não percam por isso este blogue que continua na senda de uma blogosfera melhor.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Mundial de 2018.

Portugal e Espanha apresentaram a sua candidatura à realização do Mundial de 2018, como se refere aqui. Em princípio parece uma boa iniciativa. Provavelmente preferiria que Portugal o realizasse sozinho. O prestígio decorrente daquela prova seria todo para o nosso país. Aliás, esta candidatura parece estar a ter muito menos adesão que a do Euro 2004. Os motivos são vários. O facto de ter avançado sozinho em 2004, concorrendo inclusivamente com (contra) a Espanha, é um factor determinante. No entanto, também o facto de na altura Portugal estar a passar por uma fase de “vacas gordas” o é.

Apesar de em princípio ser globalmente favorável a esta candidatura, há pontos em que vários problemas são suscitados e para os quais esperava diferente resposta daquela que foi dada.

Desde logo causa-me algum espanto que Portugal só receba uma pequena parte dos jogos do Mundial e tenha que pagar 40% dos custos. Não me parece minimamente proporcional porque não creio que Portugal receba 40% dos jogos.

Outro ponto muitíssimo discutível é a questão do financiamento. De acordo com as palavras do presidente da FPF ainda não se sabe como se vão suportar estes 40% do orçamento da candidatura. Como é que Portugal avança para este projecto sem ter a certeza da origem dos fundos? Onde está o rigor?

Ainda outro ponto é o relativo aos Estádios. Pelos vistos Portugal vai só apresentar 3 estádios. Luz, Alvalade e Dragão. Portugal fez 10 Estádios para o Euro 2004 dos quais 5 se encontram a maior parte do tempo “às moscas”. Se em vez de se ter gasto o dinheiro em tantos estádios, se tivessem melhorado aqueles que previsivelmente terão maior número de espectadores, o cenário seria bem diferente. Apesar de Portugal continuar a apresentar apenas 3 Estádios (nesse ponto nada mudaria) esses 3 Estádios seriam maiores. Pelo menos 1 deles mereceria maior capacidade. O Estádio da Luz. As estatísticas mostram que o Estádio tem tendência a encher quando o Benfica lá joga. Poderia então fazer sentido na altura em que se construiu o novo Estádio da Luz que se tivessem feito mais lugares. Seria uma medida controversa acredito, no entanto, creio que poderia ser mais satisfatória. Nesse caso o Estádio da Luz seria susceptível de albergar a final do Mundial, algo que ainda assim seria muito difícil devido ao peso político, económico e desportivo de Espanha.

Vamos ver se Portugal consegue juntamente com Espanha vencer a candidatura, mas será muito difícil. Vai defrontar-se com a candidatura conjunta de Holanda e Bélgica, e as individuais de Inglaterra e Rússia.

Esperemos.

Fica o reparo.

domingo, 18 de outubro de 2009

Eleições Autárquicas: Análise nacional.

Este é um texto que escrevi para a rúbrica semanal no Laranja Choque. Fiquem com a minha opinião relativamente à eieções autárquicas.

Estas eleições de 2009 foram realizadas 2 semanas depois das legislativas o que retira a carga de possível penalização ao Governo que muitas vezes lhe é atribuída pelos eleitores. Bem sei que análises nacionais de eleições autárquicas tornam-se muitas vezes num exercício enviesado, no entanto há que fazer uma análise mais abrangente sob pena de analisar concelho a concelho. Façamos então o comentário partido a partido. Começando pelo que mais Câmaras ganhou e seguindo por ordem decrescente.

PSD: Obteve um resultado razoável. Venceu em 136 Câmaras Municipais. No entanto importa afirmar dois pontos. Em primeiro lugar 19 dessas Câmaras foram ganhas em coligação com o CDS. Naqueles municípios onde o CDS não terá sido preponderante para a vitória (mas foi-o em alguns) foi-o para a maioria absoluta. Em 19 Câmaras desta coligação 17 tiveram maioria absoluta. Em segundo lugar importa dizer que o PSD perdeu várias Câmaras, tendo o PS recuperado ou conquistado pela primeira vez 20. Quanto a Lisboa, o PSD coligado perdeu numa grande aposta que havia feito. Santana Lopes fez uma boa campanha mas não foi suficiente para levar de vencido António Costa. Importa dizer que a direita coligada (conforme António Costa disse) perdeu para o PS (ainda que este contasse com Helena Roseta e Sá Fernandes). No Porto Rui Rio esmagou a concorrência. Elisa Ferreira que levava consigo o fardo da “gamela” do PE foi penalizada, apesar de essa não ser a única razão para a derrota avassaladora. O PSD conseguiu assegurar a Câmara de Faro por 0,4%. Macário Correia vence assim um segundo município no Algarve. Boa nota para as vitórias em Felgueiras e Marco de Canaveses. Em suma como escrevi acima, o resultado foi razoável. Não foi mau porque foi o que mais Câmaras venceu mas terá que se ter em conta que o PS subiu (e de que maneira!) e que daqui a 4 anos os muitos “dinossauros” autárquicos não vão poder candidatar-se outra vez. Nota para o facto de muitos desses “dinossauros” serem do PSD. Posto isto, mesmo em eleições tradicionalmente ganhas pelo PSD este partido não obteve uma vitória categórica, vejamos de que modo este facto pode e se vai influenciar ou acelerar o processo de reestruturação do PSD.

PS: Teve um resultado também razoável. Podemos considerá-lo bom se tivermos em conta que foi o vencedor em números de votos nacionais, número de mandatos e que obteve um crescimento de 20 Câmaras de 2005 para agora. A maior vitória foi a de Lisboa em que António Costa conquistou a maioria absoluta por 5,3%, apesar de ter perdido a Assembleia Municipal. Para além de Lisboa foram também importantes as vitórias em Beja (antigo bastião comunista) e Leiria (há anos do PSD). Dir-se-ia que a perda de Faro foi a mais significativa apesar de ter sido por escassa margem. Convém ainda dar nota de candidaturas que pareciam desde cedo condenadas ao fracasso, não por incompetência dos candidatos mas porque de alguma forma ou de outra notava-se que tinham pouquíssimas hipóteses de serem eleitos. Casos do que vos escrevo são Ana Gomes em Sintra e Elisa Ferreira no Porto. Importa fazer uma nota. O PS perdeu grande parte das suas importantes Câmaras em 2001 e ainda hoje se vê a relutância das pessoas em votar no PS. Vejam-se os casos do Porto, Cascais, Sintra e Coimbra. Para isto poderá ter contribuído a vontade de grande parte dos portugueses querer mostrar o cartão (que se tornou vermelho) ao Governo de Guterres, mas também o trabalho dos autarcas socialistas desenvolvido até então. O PS tem razões para sorrir um bocado mas terá que ter em conta o futuro de Municípios como aqueles que referi supra.

CDU: Francamente derrotado, a CDU perdeu em quase tudo, inclusive Beja para o PS. Só elegeu um mandato no Porto. Deixou fugir a hipótese de ser o fiel da balança em Lisboa elegendo apenas 1 mandato e ficando Santana Lopes com 7. O eleitorado da CDU é pouco móvel mas ainda assim parece que nas autarquias essa parca mobilidade esfumou-se um pouco.

CDS: Resultado normal do CDS. 1 Câmara vencida. Foi importante nas vitórias e maiorias absolutas em coligação com o PSD.

BE: Péssimo resultado. Perde um mandato em Lisboa e não consegue eleger nenhum no Porto. Só consegue a Câmara de Salvaterra de Magos. Siga a dança.

Vejamos como se portarão os novos (e não só) autarcas e como serão desempenhadas as funções do Governo da República agora que começa um novo ciclo eleitoral.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Um momento ridículo.

Circula por estes dias um vídeo (que não vou sequer colocar aqui) em que Maitê Proença faz piadas de índole um tanto ou quanto xenófoba acerca dos portugueses. Não achei piada nenhuma e a primeira reacção que um português pode ter é responder na mesma moeda, até porque há muitos brasileiros em Portugal e no seu país também há muitos problemas susceptíveis de serem objecto de piadas. No entanto há que resisitir a esse tipo de resposta, isso seria cair no mesmo erro da actriz brasielira. O que tem paida sim é que a mesma actriz andou por este país à beira mar plantado a publicitar um livro seu e agora parece querer vir pedir desculpa. Palavras como estas "E não falei mal de Portugal, amo Portugal, os portugueses, tenho amigos e visito o país sempre que dá. Meus livros são publicados na terrinha e vendem muito bem." só servem para piorar as coisas. Pelos vistos somos uns tipos porreiros porque por cá se compram os livros da dita moça. Apesar de tudo, como Luís Filipe Menezes disse ontem na SIC Notícias "Quem é Maitê Proença?". Que notoriedade e importância tem aquela acrtiz para darmos tanta importância ao que disse? Pouca ou nenhuma.

Fica o reparo.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Parabéns ao Blogue: 2 anos.

Cabe fazer a devida homenagem a este blogue que cumpre hoje o seu segundo aniversário. è um blogue que teve os seus altos e baixos. Este muito bem em Abril, Maio, Junho e Julho, perdeu o gás nas férias mas agora parece estar a reencontrar o bom caminho. Esperos então que este blogue continue na senda de uma blogosfera melhor. Parabéns ao Um Blogue do Caraças.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Eleições Autárquicas: Cascais.

Cascais é o meu concelho e é um dos melhores concelhos para se viver em Portugal sem sombras de dúvida. Apesar disso, a qualidade de vida das pessoas não se mantém intacta ao longo dos tempos, é necessária uma intervenção adequada por parte da Câmara Municipal para essa qualidade de vida melhore.

Nestas eleições autárquicas em Cascais confrontaram-se como adversários principais na corrida à Câmara António Capucho (da coligação PSD/CDS e Presidente da Câmara) e Leonor Coutinho (do PS), contando este escrutínio com candidatos da CDU, do BE, DO PPM, do PCTP/MRPP e do PNR.

Os resultados mostram uma vitória esmagadora do PSD/CDS em Cascais com 53.04% dos votos elegendo 7 mandatos. Já o PS obteve apenas 26.66%, isto é, perto de metade, conseguindo 3 mandatos. A CDU conseguiu 9.19% e assegurou o restante mandato.

Há por isso que procurar razões para tal resultado, completamente arrasador.

Em primeiro lugar, António Capucho mostrou algum trabalho. O paredão é hoje um óptimo local para os cascalenses (e turistas) passearem e desfrutarem o seu tempo livre. A área recuperada é enorme. Os espaços verdes são hoje abundantes no concelho de Cascais. Há infrastruturas que suportam a população de modo satisfatório. A Câmara parece assim ter feito um razoável trabalho nestes anos de governação, apesar de não haver só pontos positivos.

Em segundo lugar, a candidata do PS (sem desprimor para a sua competência) não era um nome suficientemente forte, nem tinha reputação suficiente para disputar uma Câmara com um Presidente que já lá está há 8 anos.

Em terceiro lugar, existe em Cascais o já crónico efeito Judas. Passo a explicar. Judas foi Presidente da Câmara de Cascais enquanto candidato do PS durante 8 anos, de 1993 a 2001. Nesse período a governação deste autarca foi bastante criticada, sendo que em 2001 o candidato do PS perdeu para o do PSD por larga margem, isto apesar do candidato do PS ter nome e competência. Um facto é que pela terceira vez consecutiva o PS não consegue chegar aos 30% em Cascais, e pela terceira vez consecutiva Capucho chega à maioria absoluta.

Estes parecem ser os motivos para tais diferenças junto do eleitorado. Posto isto, ou o PS consegue inverter esta onda de derrotas em Cascais, ou este permanecerá durante muito mais tempo arredado da Presidência da Câmara e delegará essa função no PSD que colhe bastante eleitorado de Cascais na medida em que é um município em que as pessoas vivem maioritariamente bem ou muito bem, em que as preocupações sociais são menores e em que a esquerda perderá necessariamente para a direita.

Cabe agora fazer umas quantas notas.

1. Em todo o concelho de Cascais só São Domingos de Rana votou maioritariamente no PS (fá-lo desde 1993) para a Assembleia de Freguesia apesar de não ter abdicado de dar um voto de confiança no PSD/CDS na Câmara.

2. A diferença entre o PS e o PSD/CDS para a Assembleia Municipal (20,76%) é menor do que para a Câmara (26,38%) o que poderá levar o PS a repensar tudo isto. A candidata do PS à Câmara tem menos votos que João Proença (que creio não ter filiação socialista), candidato à Assembleia. O motivo para isto também pode residir na tentativa de parte do eleitorado no sentido de conseguir algum contraponto, alguma fiscalização.

3. O PSD/CDS consegue maioria absoluta na Câmara e na Assembleia. Demolidor.

4. Bom sinal para o parco número de votantes no PNR. Apenas 285.

5. Má nota para a abstenção. 55,94% é demasiado.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Prémio Nobel da Paz

Parece que o Presidente dos Estados Unidos da América recebeu o Prémio Nobel da Paz, resta é saber por o quê...
Não me interpretem mal, fico bastante feliz por o senhor ter sido galardoado com um prémio de tamanha distinção. Ficam desde logo a minha congratulação e os meus votos de felicidade!
Posto isto, há que reflectir.
Ao longo dos tempos a fundação do Sr.Nobel tornou-se uma instituição respeitada e louvada por esse mundo fora. Aparentemente isenta, tem celebrado o mérito daqueles que dentro de uma ou outra categoria contribuíram para o mundo, para o seu progresso e para a sua humanidade, dando-lhes um prémio.
No entanto, o mais recente Nobel não deixa de surpreender. Será que ele foi atribuído pela promessa de retirada do Iraque? Porque prometeu enviar mais tropas para o Afeganistão? Porque é o primeiro presidente norte-americano negro (o que é um feito, mas agora digno de Nobel?)? Ou simplesmente porque é um tipo moreno e simpático que inspira muita gente?...Fica a dúvida.
A mim é que ninguém me convence que é por ele ter revolucionado as relações internacionais. Até esta vi mais promessas do que feitos e pouca alteração da política externa da superpotência. Aliás nem tal era esperado, porque todos sabemos que não se muda assim, de presidente para presidente, a política externa de um Estado e muito menos a de uma potência.

Pessoalmente, apenas pude chegar a uma conclusão: o mundo está tão mal que já que não há candidatos (dignos) a Nobel da Paz e - "mal por mal" - já agora vai para ali.

Foto tirada daqui.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Aniversário da República em Portugal.

Nunca, desde que me recordo, se falou tanto em Monarquia num aniversário da República. Devem ser saudosismos repentistas, e daí…nunca se sabe…Na realidade falou-se bastante em Monarquia, o que não é mau, não necessariamente. Fomenta-se o debate, contrapõem-se os dois modelos, cada um retira a sua própria conclusão. No entanto, acho alguma graça esta nova onda de monárquicos que gosta de passar algum do seu tempo a colocar bandeiras monárquicas em edifícios públicos. Acho piada de facto, e devo dizer que lhes correu bem a atitude. Ganharam projecção, e agora até já aparecem na televisão, lançando ideias como a criação de um referendo perguntando às pessoas o que preferem, a República ou a Monarquia. Eu devo dizer que apesar de todos os argumentos favoráveis a uma Monarquia que residem essencialmente na estabilidade que um monarca pode dar e que alegadamente um Presidente não, eu tenho posição contrária. Só a simples possibilidade de um Chefe de Estado sê-lo “porque sim”, isto é, de o ser sem qualquer legitimidade a não ser, ser filho de alguém, faz com que a ideia de uma monarquia caia por terra como cenário aceitável. Um Presidente pode ser ou não competente mas caso o povo o queira retirar do cargo, tem mecanismos para o fazer, as eleições de 5 em 5 anos. Com um Monarca já não será esse o caso. Vai para lá “porque sim” e fica lá “até quando quiser”. Esta é a principal razão para se rejeitar tal ideia. No meu entender, que continue a República rumo aos 100, e que faça muitos.


1.

"Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido — sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser; podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.

Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.

A quem, como eu, assim, vivendo não sabe ter vida, que resta senão, como a meus poucos pares, a renúncia por modo e a contemplação por destino? Não sabendo o que é a vida religiosa, nem podendo sabê-lo, porque se não tem fé com a razão; não podendo ter fé na abstracção do homem, nem sabendo mesmo que fazer dela perante nós, fica-nos, como motivo de ter alma, a contemplação estética da vida. E, assim, alheios à solenidade de todos os mundos, indiferentes ao divino e desprezadores do humano, entregamo-nos futilmente à sensação sem propósito, cultivada num epicurismo subtilizado, como convém aos nossos nervos cerebrais.

Retendo, da ciência, somente aquele seu preceito central, de que tudo é sujeito a leis fatais, contra as quais se não reage independentemente, porque reagir é elas terem feito que reagíssemos; e verificando como esse preceito se ajusta ao outro, mais antigo, da divina fatalidade das coisas, abdicamos do esforço como os débeis do entretimento dos atletas, e curvamo-nos sobre o livro das sensações com um grande escrúpulo de erudição sentida.

Não tomando nada a sério, nem considerando que nos fosse dada, por certa, outra realidade que não as nossas sensações, nelas nos abrigamos, e a elas exploramos como a grandes países desconhecidos. E, se nos empregamos assiduamente, não só na contemplação estética, mas também na expressão dos seus modos e resultados, é que a prosa ou o verso que escrevemos, destituídos de vontade de querer convencer o alheio entendimento ou mover a alheia vontade, é apenas como o falar alto de quem lê, feito para dar plena objectividade ao prazer subjectivo da leitura.

Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplações estéticas será a de aquilo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem há poente tão belo que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê sono que não pudesse dar-nos um sono mais calmo ainda. E assim, contempladores iguais das montanhas e das estátuas, gozando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa íntima substância, faremos também descrições e análises, que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gozar como se viessem na tarde.

Não é este o conceito dos pessimistas, como aquele de Vigny, para quem a vida é uma cadeia, onde ele tecia palha para se distrair. Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incómodo. Não temos, é certo, um conceito de valia que apliquemos à obra que produzimos. Produzimo-la, é certo, para nos distrair, porém não como o preso que tece a palha, para se distrair do Destino, senão da menina que borda almofadas, para se distrair, sem mais nada.

Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia, por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."

Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego "composto por Bernardo Soares ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa"

sábado, 3 de outubro de 2009

O Candidato a Presidente pelo PS.

A confirmar-se esta notícia avançada pelo Público de que o candidato pelo PS em 2011 é Jaime Gama, já sei quem não vai ficar nada alegre.



Perdoem-me o trocadilho.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Da (Nova) Ordem Internacional - Reflexões Soltas I

Ultimamente tenho reflectido sobre o estado actual do mundo. Da dita ordem, ou desordem, internacional, do seu significado e do seu possível futuro. Tenho sido acusado de pessimismo, fatalismo - qualidades ao que parece próprias de um senhor velhote no leito da morte e nunca de "quem tem a vida pela frente".
Tudo começou quando dei a minha, inusitada, opinião sobre a ONU. Afirmei considerá-la uma organização internacional pretensamente universal, suposta responsável pela manutenção da paz e segurança internacionais. Cujo real objectivo sempre fora desenvolver e sustentar uma nova ordem internacional no pós-guerra em beneficio dos seus vencedores (os cinco grandes, ou por outra, a URSS e os EUA). E que como tal, até esta, falhou redondamente o seu principal objectivo.
As Nações Unidas não só não se demonstraram em tempo algum capazes de garantir paz e segurança algumas, como foram ainda menos capazes de organizar qualquer ordem internacional. A verdade é que foi vitima de uma era conturbada. Uma era de oposição ideológica onde as novas potências procuravam desesperadamente uma nova forma de interacção.
Nessa medida a ONU, foi um fracasso. Teve grandes êxitos, claro está, nomeadamente na promoção do direito internacional, nas ajudas ao desenvolvimento e humanitárias e noutras áreas. Porém, não acredito que tenham sido seus êxitos a não eclosão de uma guerra entre as grandes potências, nem as independências e muito menos a paz relativa que hoje vivemos. No primeiro caso, devemos tudo à intimidarão nuclear, ao MAD e ironicamente à corrida armamentista. No segundo à mudança de paradigma, onde quem mandava acordava em poucas coisas, sendo uma delas o direito de auto-determinação. Aí poderei reconhecer à organização um papel de catalizador mas não de mãe das independências.
Quando digo que a ONU falhou, digo-o com um certo sabor amargo na boca. Entristece-me, embora não me surpreenda, constatar que o maior fórum internacional alguma vez criado, com grandes laivos de democraticidade, se tornou, após o conflito silencioso, o maior legitimador da ordem "ocidental". Tal como noutros tempos a Santa aliança ou o exército romano, o seu principal papel tornou-se manter a actual balança de poderes.
Bem... poderão discordar, dizendo que o seu papel não é esse que apenas é manipulada para tal. Pese embora isso poder ser verdade, o facto é que em termos práticos o efeito se não for igual é muito semelhante. Bem sei também que o Direito Internacional é um importante factor na construção da actual ordem visto que ele é tendencialmente respeitado. Resta saber até quando e se o Direito é ou não um agente do sistema, neste caso se ele não existe e serve os interesses de uns em detrimente dos restantes.
Existe ainda a questão da idade da organização. Reconheço que entre a sua criação e subida dos E.U.A. à posição de líder mundial passaram aproximadamente 45 anos. Acontece que enquanto assim foi o mundo era bipolar e aí a ONU nada podia. Tendo sido pouco mais que um palco de espectáculos onde se brincava à nova ordem internacional democrática. Tendo também servido pontualmente de marioneta ora nas mãos de um ou doutro bloco. Tendo ainda sido paralisada por inúmeras vezes pelos vetos, de uns e outros, que impediam o que quer que fosse de acontecer, ou já esquecemos os primeiros anos das Nações Unidas?

Correrá a Organização das Nações Unidas hoje o risco de desaparecer ou de se tornar obsoleta com a alteração de paradigma que se avizinha?


P.S.- Falo aqui da ONU, estando bem ciente, que esta não se cinge ao Conselho de Segurança. O leitor deverá no entanto compreender que para este post é a ordem internacional, logo o Conselho de Segurança, que importam.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Por uma Democracia Secular

Para aqueles que ainda não compreendem a sua importância


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Comentário às Eleições Legislativas de 2009.

Neste dia 27 de Setembro realizaram-se as eleições legislativas, por ventura aquelas consideradas como as mais importantes na medida que é através delas que os portugueses se vêm representados na Assembleia da República e que posteriormente se formará um Governo. Isto é, é a partir destas eleições que se conhecem os actores do poder legislativo e executivo.

Estas eleições tiveram os seguintes resultados (sem os votos dos emigrantes): PS (36, 56%) 96 deputados, PSD (29, 09%) 78 dep., CDS (10, 46%) 21 dep., BE (9, 85%) 16 dep., CDU (7, 88%) 15 dep.

Desde logo importa afirmar que a análise a estes resultados não deverá ser feita através de uma comparação entre as eleições de 2005 e as de 2009. Temos que ter em conta tudo o que aconteceu entretanto. Contestação, escândalos, sondagens, tudo…

Posto isto, passemos à análise partido a partido.

PS: Vence estas eleições com clara vantagem sobre o PSD (apesar de ter perdido deputados para todos os outros partidos) depois da onda de contestação gerada durante o mandato conferido em 2005, depois dos resultados das eleições europeias e depois de algumas sondagens terem previsto um empate técnico entre os dois partidos. Este facto sucede acima de tudo pela excelente campanha dos socialistas e a prestação convincente de José Sócrates nos debates. A prestação menos boa do PSD e da sua líder foram também preponderantes. No entanto, estas eleições trazem algum “amargo de boca” ao PS. Por um lado o PSD e o CDS juntos têm mais deputados que o PS. A pergunta que se coloca é se correrá o PR o risco de convidar a governar os dois partidos de direita. Creio ser difícil tal cenário pois debilitaria a imagem do PR e contaria com uma oposição dilacerante da esquerda em maioria no Parlamento. Por outro lado, o PS (afastado que está o cenário do Centrão) só consegue ter maioria absoluta com o CDS, algo que também parece muito complicado pois este partido parece não estar disposto para tal. O PS parece estar numa situação em que governará sozinho tendo de contar necessariamente com outros partidos para viabilizar diplomas importantes como o Orçamento de Estado. Não esquecer a possibilidade de uma moção de censura, se bem que importa não esquecer 1987 em que “saiu o tiro pela culatra” ao PRD.


PSD: Estrondosamente derrotado (apesar de ter ganho 3 deputados) pois não soube capitalizar para si a onda de contestação em torno de Sócrates e do seu Governo. Essa contestação traduziu-se sobretudo em votos nos outros 3 partidos. O PSD não fez uma boa campanha e prestação de Manuela Ferreira Leite nos debates não foi a melhor conforme já escrevera aqui no blogue. Mesmo com o resultado do CDS dificilmente formará Governo até porque não surgiram afirmações que sequer pudessem pôr sobre a mesa esse cenário. Está neste momento em causa a permanência da líder do PSD enquanto tal. Provavelmente dever-se-á manter até às eleições autárquicas, mas será dificílimo continuar a liderar, isto apesar de o PSD provavelmente ganhar as eleições (que é um dado recorrente e que não decorre normalmente da performance do líder).


CDS: Bons resultados para este partido que nas sondagens se encontrava bastante atrás. Bons debates e campanha de Paulo Portas que conseguiu chegar a mais de 10%. Será um elemento fundamental neste novo Parlamento. A ver vamos em que moldes.

BE: Apesar dos 16 deputados eleitos e de ter duplicado o número relativamente a 2005, este resultado deverá desiludir os bloquistas, apesar de alguns manifestarem agrado perante tal cenário. É que em todas as sondagens o BE aparecia destacado em 3º lugar e mesmo nas sondagens à boca das urnas parecia que poderiam eleger 20 deputados. O papel fundamental que poderiam ter na AR fugiu para…o CDS.

CDU: Ganhou um deputado mas mantém o papel que obteve em 2005. O eleitorado comunista é pouco móvel e por isso não surpreende este resultado.



Convém ainda fazer dois apontamentos.

Em primeiro lugar importa lembrar os números da abstenção. 39, 4% dos cidadãos eleitores não votaram, o que é muito. São números que deverão suscitar reflexão aos eleitores e aos eleitos.

Em segundo lugar é necessário fazer uma referência às sondagens que têm falhado demais, mesmo à boca das urnas, algo que me parecia pouco provável.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Cenários.

Escrevi este texto no domingo para a rúbrica semanal no Laranja Choque. Fiquem com o meu ponto de vista acerca de uma sondagem recente relativa às eleições legislativas.

Já me perguntei sobre a real utilidade das sondagens para as pessoas num texto que pode ver aqui. Por isso, não vou aqui discutir esse tema. O tema também envolve sondagens mas de um modo diferente.

Como se costuma dizer, e é muitas vezes dito pelos políticos, as sondagens valem o que valem, mas não deixam de mostrar tendências de voto. Recentemente surgiram novas sondagens que provavelmente já demonstram as reacções dos portugueses aos debates entre os líderes de cada partido/coligação com assento parlamentar.

Uma delas, a da Universidade Católica para a Antena 1, RTP, o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias, dava para além da vitória do PS nas eleições, uma possibilidade que ainda não havia sido avançada por nenhuma sondagem recente. A possibilidade de dois partidos (que não o PS e o PSD) conseguirem formar uma maioria absoluta em coligação. Na realidade, o PS nesta sondagem dispõe de 38% e o BE de 12%, juntos formam mais do que o nº de votos necessário para a tal maioria. Assim como o PS e a CDU juntos formam 45%. O que também será suficiente. A pergunta que se coloca é: Estará Portugal preparado para um Governo de Coligação entre um partido de centro-esquerda e outro de extrema-esquerda? Não creio que esteja, apesar de se dizer que em Portugal a maioria das pessoas é de esquerda (entenda-se do centro para a esquerda). Aliás, nem creio que os líderes dos dois partidos apontam esse caminho como solução. Mais depressa governará o PS sozinho.

No entanto, mesmo que estas sondagens acertem na muche, o PS pode não conseguir governar. A razão para tal afirmação encontra-se vertida nos resultados que a sondagem aponta ao PSD e ao CDS-PP. Juntos conseguem 39% por virtude da soma dos 32% do PSD e dos 7% do CDS-PP. Estes 39% dão a essa possível coligação (bem mais plausível que a do PS-BE, ou do PS-CDU) um ponto percentual acima do PS. No entanto, existem dois pontos contra este cenário. Por um lado não creio que o PSD apreciará uma coligação pós-eleitoral que nem sequer é suficiente para formar uma maioria absoluta. Para que é que o PSD quereria levar o CDS para um Governo de Maioria Relativa onde teria que ceder pastas ministeriais e afins? Responderão possivelmente: Para ganhar as eleições. Bem visto, é um facto. Esse é o único cenário passível de levar o PSD para o Governo (repito se o cenário destas sondagens se verificar) afastada que está uma coligação com o PS, CDU E BE. No entanto, avanço mais um dado. O PSD só durante 2 anos governou em maioria relativa. Foi de 1985 a 1987. É possível que essa falta de hábito se concretize numa inibição de se lançar para este projecto de Governo em maioria relativa. Por outro lado, mesmo com aquele 1% acima do PS, isso pode não ser suficiente para ter mais deputados que os socialistas. Esta situação constitui um empate técnico.

Perante este cenário, parece-me que o panorama mais plausível será o de o PS governar sozinho tendo de contar com o apoio dos vários partidos para conseguir prosseguir com as suas políticas. A ver vamos.

"Agarra que é ladrão!" terão dito.

Vi agora no Público online que o quadro "Olympia" de Magritte foi roubado num Museu de Bruxelas. A senhora retratada é jeitosa mas creio que a real motivação para este roubo foi outra, o seu valor monetário. Vai daqui o desejo de que encontrem o quadro. Fiquem com a imagem de uma senhora dos anos 40 (a esposa de Magritte).

Bonita pintura, não acham?

O Clube.


Vejo por estes dias alguma preocupação de muita gente com o momento do Benfica. Vejo gente a escrever em jornais a sua inquietação com a euforia desmesurada em torno deste clube alegando que é sol de pouca dura e que todas as expectativas sairão, mais tarde ou mais cedo, goradas. Vejo gente a ir a programas em que alegadamente se discute futebol afirmar que o Benfica começa a ter direito a decisões muito duvidosas, algo que faz adivinhar uma época em que o clube da Luz vai ser levado ao colo. Vejo tanta gente que “tão distinta” e depreciativamente afirma que o Benfica é o clube do “povão”, como se isso fosse algum problema. Vejo esta balbúrdia de comentários de todos os lados mas maioritariamente de dois clubes. Um que ganhou nos últimos 10 anos 6 campeonatos de forma duvidosa (duvidosa é um eufemismo engraçado) e que nos anos 90 conseguiu um penta sabe-se lá como. Ou saber-se-á? O outro tem uma dificuldade imensa em galvanizar gente, em encher estádios, em jogar bem, no fundo, em ser um clube. Olha por isso com desdém para o outro lado da rua. FC Porto e Sporting deviam, em vez de criticar o Benfica, olhar para si, para os seus jogos, e procurar soluções. Todo este burburinho só surge porque o Benfica enche estádios e joga que se farta. Tudo isto acontece porque o Benfica é um grande, é O Grande, é O Clube.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Legislativas 2009.

A Campanha eleitoral anda aí e já muito se viu acerca do que cada partido alega querer para o país e o que cada líder alega e quer parecer aos olhos do eleitorado. Nesta semana decisiva para os candidatos a deputado para a AR proponho-me a fazer um exercício de avaliação da prestação dos líderes dos partidos representados na AR quer nos debates (que foram substancialmente bons), quer nas entrevistas dos Gato Fedorento, quer também nas suas acções de campanha, arruadas, cartazes, etc.

Quanto aos debates, ordenaria numa classificação do 1º ao 5º lugar (do que esteve melhor ao que esteve pior) os seguintes nomes.

1º Paulo Portas
2º José Sócrates
3º Francisco Louçã
4º Jerónimo de Sousa
5º Manuela Ferreira Leite

Apesar de assim ordenada, esta classificação poderá conter meios empates por assim dizer. Isto é, há nomes que podem estar muito perto no que ao desempenho diz respeito mas acabam por ter classificações distintas. Caso disto é o de Portas e Sócrates que estiveram bem em todos os debates, vencendo-os com alguma tranquilidade. É no debate entre ambos que poderá haver uma nano/mini/micro/pequena/média diferença (surripiando a bem apanhada crítica dos Gato Fedorento). Neste debate Portas terá levado a melhor a Sócrates ainda que por muito pouco. De resto, outro facto é o de Portas ter ganho mais confortavelmente os debates com os restantes líderes que Sócrates. Em suma boa prestação de ambos. Outro caso de meio empate ou empate técnico é o de Jerónimo de Sousa e Manuela Ferreira Leite mas para pior. Jerónimo não tem o dom da oratória, ou pelo menos não o mostrou, o que não é necessariamente mau, porque assim não engana ninguém com artifícios, mas num debate faz falta. Manuela teve alguma dificuldade em se exprimir e nos debates que tinha que ter ganho parece ter perdido, designadamente com Portas que dominou. Segundo dizem e consigo concordar, Louçã prometia mais mas creio que o 3º lugar não lhe escapa.

Quanto às entrevistas dos humoristas, todos estiveram bem. Não se esperavam tiradas humorísticas monumentais de políticos. Esperava-se antes a sua presença e todos foram e esperava-se também alguma boa reacção às críticas pintadas de piada. Os que melhor se safaram foram, parece-me, Sócrates e Portas. O primeiro teve algum benefício da dúvida por ser o primeiro e partilhou algumas histórias na sua vida de político e nesse aspecto Jerónimo de Sousa portou-se muito bem também. Já Portas lidou muito bem com as perguntas que lhe foram colocadas e aquela do táxi foi muito bem agarrada. Os restantes não andaram longe.

Quanto a campanhas, o PS parece ser o partido com a máquina propagandística mais bem oleada. A quantidade de gente naquela espécie de comícios é enorme. A CDU conseguiu juntar também muita gente no Porto o que não deixa de ser de valorizar. O CDS-PP faz aquelas habituais arruadas com cumprimentos para tudo e todos e parece capitalizar muitos votantes entre os mais desfavorecidos, o que não deixa de causar surpresa. Poderá ser mera aparência mas dia 27 veremos se assim é. Os restantes cumprem sem grande alvoroço.

Há a salientar um aspecto relativamente importante das campanhas, os cartazes. Os cartazes não dizem muito. Muitas vezes contêm um slogan com aquilo que as pessoas querem ouvir. Porém há cartazes bastante engraçados nesta campanha. Destaco dois. O do MMS e o do BE que também tem um tempo de antena fora do comum. Quando digo "fora do comum" não digo mal “enjorcado” como o do PTP.




Já que falo de campanha, importa dizer que as últimas querelas entre PS e PSD relativamente a quem é patriota e conservador e quem não é patriota e moderno constituem um exercício de desconversa gritante. Algo que agora deverá ser prática comum. Todos os partidos vão agarrar em todas as tábuas de salvamento que puderem, nem que sejam meramente artificiais. Espero alguma contenção e ainda alguma troca de ideias.

Votem!

domingo, 20 de setembro de 2009

Volta a Portugal: Que Futuro?

Há já alguns meses escrevi este texto na rúbrica semanal que faço aos domingos no Laranja Choque. Anunciei depois que aqui o iria publicar. Perdoem-me a demora. Apesar de tudo, este texto vem em boa altura quando se desconfia que o vencedor da prova tenha usado dopping, o que não prestigia este campeonato, e mais do que isso, o ciclismo em geral. Aqui está o texto.

O ciclismo é uma modalidade interessante, creio ser daquelas em que o esforço do atleta é mais desgastante. De vez em quando lá pratico este desporto e sinto como é preciso muito empenho para enfrentar lombas, subidas, descidas, rectas, curvas, tudo e mais alguma coisa. Portugal tem alguma tradição neste desporto contando com um grande nome do ciclismo Mundial, o já falecido Joaquim Agostinho. Neste sentido, já existe há 71 edições a Volta a Portugal em bicicleta. É uma boa marca e espera-se que continue a realizar-se ano após ano.

No entanto, é uma prova relativamente menor no panorama do ciclismo internacional. O Tour de França, a Vuelta de Espanha e o Giro de Itália ocupam com distinção os lugares de topo desta modalidade, com maior relevância para o primeiro. São provas de intenso sacrifício, com semanas de extensão e contam com a participação dos melhores ciclistas mundiais. Nem sei se à frente de Portugal não estarão outras provas no panorama internacional, é bem provável que estejam. Será possivelmente o caso da Polónia e outros países da Europa que têm maior notoriedade nas suas provas de ciclismo que Portugal. Um razoável barómetro para verificar se de facto determinada prova é forte ou não é a transmissão num canal de televisão internacional, como é o caso da Eurosport.

Para além disto, a Volta a Portugal, que já teve alguma mística, perdeu-a um pouco. Hoje em dia a Volta a Portugal, que no seu site se refere a uma volta que “cativa o país de Norte a Sul”, parece não fazer jus ao que refere. Para esta conclusão retirar é suficiente analisar o mapa da prova.


Sabem qual é o ponto mais a sul por onde a Volta a Portugal passa? Eu respondo. Lisboa, e é apenas no Prólogo que tem pouco mais que 2 quilómetros. Tendo em conta que Lisboa é do centro sul…Onde está o sul? Uma Volta a Portugal tem necessariamente de cobrir de modo razoável o país inteiro. Não se exige que se corra cidade a cidade. Porém, passar no Alentejo, no Algarve, ter um final em grande na capital parece já ser exigível.


Outro ponto onde a Volta perde para as demais provas de ciclismo é o nº de etapas e duração. A prova tem 10 etapas, o que é manifestamente pouco para uma prova internacional. Este campeonato de ciclismo serve assim como um mero treino para aqueles que querem participar em outras provas.


Porém, não ficam por aqui os fundamentos para o insucesso desta prova. Lembro-vos ainda um outro problema. A adesão a uma Volta a Portugal deriva imensamente da participação do Benfica. É uma ideia que fica. Normalmente quando assiste ao ciclismo um espectador quer ver o ciclismo enquanto desporto. Porém, por cá, com a tradição de participação dos grandes do futebol (Benfica, Porto e Sporting) no ciclismo a atenção centra-se nas equipas, algo que lá fora e mesmo cá não será possível relativamente às demais equipas na medida em que as mesmas são empresas sem qualquer matriz ou massa adepta e muitas vezes mudam de nome de acordo com o patrocinador. O Porto e o Sporting já não participam nesta prova há alguns anos. No entanto o Benfica de vez em quando lá surge com uma equipa de ciclismo que é acompanhada de perto por muita gente, não fosse um enorme clube nacional. Esta participação dá relevo ao ciclismo e engrandece a prova. Este ano o Benfica não participa. Lamento.


Contudo, não podemos cruzar os braços e resignarmo-nos ao facto de Portugal ser um país pequeno e periférico, não procurando formas de tornear de algum modo esses pontos fracos, essas fragilidades. Há que granjear esforços e encontrar um modo de tornar a prova mais apelativa e fazer com que tenha maior notoriedade. Não culpo a organização da prova, aliás o seu trabalho é de valorizar. No entanto, creio ser fundamental uma melhoria a bem do ciclismo nacional.

sábado, 19 de setembro de 2009

Toca a votar

Seguindo as sábias palavras de John F. Kennedy:
"...ask not what your country can do for you - ask what you can do for your country."

Aproveito também para apresentar aqui neste mesmo espaço o artigo 49º da Constituição da República Portuguesa:
Artigo 49.ºDireito de sufrágio
1. Têm direito de sufrágio todos os cidadãos maiores de dezoito anos, ressalvadas as incapacidades previstas na lei geral.
2. O exercício do direito de sufrágio é pessoal e constitui um dever cívico.
Após esta breve introdução penso que é por demais evidente a razão que me traz de novo a tão nobre espaço. É verdade, venho apelar a todos os cidadãos Portugueses, leitores ou não deste blogue, que dia 27 de Setembro levantem o rabiosque do sofá e votem!
Em 2005 houve uma abstenção de 35.74%, recentemente nas eleições Europeias este valor foi ainda maior. Aquela conversa de que o meu voto não faz diferença, de que PSD ou PS é tudo igual tem de acabar. Se o Povo Português quer criticar legitimamente quem está no Governo, tem de abandonar esta atitude de inércia e votar. Em 2004 concorreram 11 partidos, em 2009 concorrem 15 partidos, existem mais hipóteses de escolha em todo o espectro político. Se nenhum destes 15 partidos apresentar propostas aceitáveis votem em branco. Assim podem dizer que não concordam com a política feita em Portugal, mas que demonstraram o vosso desagrado da maneira correcta.
Uma pequena pergunta para terminar. Será que o Deco, o Pepe e o Liedson vão votar? Não que eu tenha algo contra a sua presença na Selecção Nacional. Legalmente eles são tão Portugueses quanto eu.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Sugestão de Campanha

Hoje acordei, vi o telejornal e concluí que a campanha do PSD está muito fraquinha - aliás estão todas. E visto que hoje já nem se faz política em Portugal nem sequer campanha legislativa gostaria de sugerir que o PSD juntasse à sua campanha anti-Sócrates a seguinte musica/vídeo.



É que a mensagem passa na mesma, a côr também, e é preciso ver que a senhora sempre tem algo de apelativo. Fica a sugestão.

There's No School Like...

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Lembro-me bem disto.

Era eu pequeno quando assisti em directo pela televisão aos atentados do 11 de Setembro. Ficam as lembraças e o desejo de que tal ataque à vida nunca mais repita .


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Tenho Saudades...

Faz-me falta muita coisa: pessoas, lugares, sons, ocupações... Uma ocupação que me faz especial falta é escrever. Escrever mesmo. Agarrar de um bocado de papel, de um lápis ou caneta e escrever. De corpo e alma, nada de testes, nem trabalhos, nada de PC's ou telemóveis, escrever simplesmente - só eu e o papel.
Essa saudade que sinto é para mim particularmente paradoxal. Por um lado nunca, desde que me lembro, nunca gostei de escrever, detestava fazê-lo. Nunca tive uma caligrafia aceitável. Talvez tenha sido por isso. Talvez por causa da censura de todos os que alguma vez se entretiveram em descodificar um teste meu, uma composição ou mesmo um impresso que tenha preenchido. Por outro lado, e verdade seja dita, sempre tive um computador como alternativa. Talvez tenha sido isso e alguma preguiça que tenham impedido a maturação da minha relação com o papel.
A verdade é que hoje me dá muito mais gozo escrever num qualquer pedaço de papel solto, por mais vagabundo que seja, do que num ficheiro de word em branco ou no blog, mesmo com as comodidades do corrector automático. Desprezo esta maldita evolução tecnológica, malditas aulas de informática, malditos magalhães!
Será que um homem já não pode sequer aprender, compreender e aprofundar a sua relação com o papel antes de ter que procurar o conforto das teclas para se tentar exprimir?
Descobri já tarde este regozijo, por mais fortuito que possa ser, e com grande pesar. Não sei se a felicidade de o ter conhecido ultrapassa a infelicidade que se lhe segue: saber que tudo isto não passa de uma perda de tempo, que não é funcional e que já ninguém lê coisas escritas, nem liga ao papel a menos que tenha passado por uma impressora. Hoje em dia nenhuma ideia pode ter qualquer valor se não for martelada num computador. Já não se escreve, ou se martela ou nem vale a pena o trabalho.. É triste.
É por isso com a nostalgia de um tempo que nunca conheci e que não creio vir a ter tempo de conhecer que escrevo estas linhas. O mundo está a perder uma grande instituição e nem se apercebe e muito menos se rala com isso.
Lamarck, como sempre prevalece: Ou nos adaptamos ou morremos. É inevitável.
E por isso decidi prestar uma última e (primeira, no que me diz respeito) homenagem à escrita. A todos os que a preservaram nos últimos milénios. A todos que como eu sentem a sua falta, que imaginam um escritor com um caderno em vez dum computador. E por fim, a todas as identidades que perdemos e perderemos com o fim da escrita. É que todos esquecem que a escrita definia e identificava as pessoas. Como qualquer outro elemento, desde a íris à impressão digital, era única à pessoa em questão e fazia parte da sua identidade.

NOTA:
-O texto original foi escrito num caderno há muito tempo e decidi agora transcrevê-lo.
-Imagem tirada daqui

Piada do Dia

Disse Manuela Ferreira Leite: "Acho que há asfixia democrática no continente" ... ao que parece na Madeira não!

Sim Sra, esta campanha legislativa não deixa de surpreender.

Reza e Vela à Santa Padroeira dos Telejornais



Cara Santa Manela,

Por si e por nós acendo esta vela. Venho pedir-lhe que nos guie que estamos perdido! Salve este país que agora se viu delapidado... sem si ninguém parece ser capaz de produzir um telejornal de excelência... Já não falo de um por sexta mas pelo menos um por mês! Por favor nomeie o seu seguidor e guie-o para um caminho iluminado por si!

Amém,

P.S.- Sei que está sempre connosco, até ao seu regresso!


sábado, 5 de setembro de 2009

O Caos.


Fim do Jornal Nacional de Sexta da TVI. A minha primeira reacção: Finalmente!
De repente oiço meio Mundo falar em falta de liberdade de expressão, de asfixia democrática. Na realidade, se a suspensão daquele serviço noticioso/político tem por base uma decisão governativa então caminhamos para um local pantanoso. Porém, nada está provado nesse sentido, aliás surgem informações de que a decisão foi tomada pelos donos da empresa que detém a TVI, resta saber se pressionados se não. Ademais não esquecer o principal prejudicado por esta situação: O PS.

A maioria dos portugueses vai achar que foi Sócrates que mandou cancelar o pseudo-jornal de Manuela até porque por um lado a maioria dos portugueses assiste ao Jornal Nacional, qual romaria, e por outro lado o próprio Sócrates semeou os ventos que resultaram nesta tempestade que é a provocação notória que a TVI lhe tem feito de há uns meses para cá. Nem a inclusão de Pina Moura na Media Capital o safou. Aliás, o mesmo Pina Moura veio há tempos elogiar o programa de Governo do PSD. Só desgraças para Sócrates.

Creio que grande parte dos portugueses está a assistir a isto tudo observando apenas um lado. O da pobre e justiceira Manuela que foi retirada do seu digno posto de trabalho e que já conta com vigílias de solidariedade dos seus altruístas colegas. “Maldito Sócrates!” pensarão alguns. No entanto convém prestar atenção ao que se foi passando na TVI. Foram as informações relativas ao Freeport e toda a informação noticiada pela TVI já imbuída de algum espírito tendencioso que espoletaram toda a querela existente entre o PS/Sócrates e a TVI.

Nas palavras de Paulo Baldaia no JN "Asfixia democrática é jornalismo sem regras. Já que andam todos com tanta coragem, alguém está disponível para impor responsabilidade? É que é muito bonito viver à pala do ataque gratuito ao poder para parecer jornalista isento, mas o povo não ganha nada com isso".

Resta esperar para ver até onde isto vai. Resta descobrir se estamos perante um caso de censura ou de jogo político.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

À espera do dia

Eleições

Para aqueles que ainda têm dúvidas quanto à sua orientação política ou em que partido votar, aqui vai um link para a bússola eleitoral apresentada pela SIC.

http://sic.sapo.pt/online/noticias/portugal2009/multimedia/bussola-eleitoral.htm

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

The daily show

Para quem gosta do programa aqui vai um vídeo de Jon Stewart em mais uma entrevista bem sucedida. O entrevistado é Bill Kristol, republicano conservador norte americano.


The Daily Show With Jon StewartMon - Thurs 11p / 10c
Bill Kristol Extended Interview
http://www.thedailyshow.com/
Daily Show
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